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Revolução cervejeira

Para falar de estilos, Maurício Beltramelli, sommelier de cervejas, inventou uma história. “Imagine-se em um restaurante. Você pergunta ao maître o que há no almoço, e ele responde: arroz.” Você pede outro prato, e ele insiste: só temos arroz. Ele traz o cardápio, e você lê: arroz agulhinha integral, parboilizado, arbóreo e basmati. O mesmo acontece quando você chega em um bar e pede uma cerveja”. No Brasil, as tipo pilsen dominam.

“Eu vim aqui conversar com vocês sobre estilos de cerveja. Fica chato falar sem molhar a palavra — e não com água — com uma cervejinha de boas-vindas”, disse Beltramelli. Seis rótulos de cerveja preencheram as taças, enquanto o sommelier falava sobre estilos. Wäls Pilsen, Colorado Apia, Bodebrown Wee Heavy, Way Double American Pale Ale e Einsenbahn Lust. Seis estilos de rótulos estrangeiros feitos no Brasil.”O povo do vinho me perguntou fora da sala se haveriam cuspideiras para quem não quisesse engolir as cervejas. Cuspir cervejas dá 50 anos de azar”, brincou.

Cervejas nasceram há oito mil anos com os sumérios. Seis mil anos depois, em Ur, ainda na Suméria, o fermentando de grãos ganhou sabores e dois estilos surgiram, no mesmo período, em Attusa. À época, ao menos 15 estilos estavam estabelecidos, com a mesma base de cereais, mas condimentada com frutas, raízes e méis.

Mas 15 foi só o começo da história cervejeira. Atualmente, há 120 estilos de cervejas catalogados de acordo com a Brewers Association, entidade americana e mundialmente usada como referência. Durante a aula, Beltramelli apresentou Michael Jackson aos ouvintes, famoso jornalista inglês, morto em 2007, responsável pela normatização de estilos de cerveja. “Se existe um deus para os cervejeiros, seu nome é Michael Jackson”, disse.

Começar com um pilsen tradicional foi estratégico. Quem estava acostumado com cervejas triviais conheceu uma boa representante autêntica do estilo, a Wäls Pilsen, eleita a melhor cerveja do Brasil no Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau, no mês de março. “Vejam a cor dela, a turbidez, característica da espuma. Uma pilsen tem cheiro forte de pão”, ensinou o sommelier. Ainda na escola alemã, Beltramelli pôs nas taças a Colorado Apia. “É uma weiss, estilo bem alemão, mas com uma diferença: essa leva mel”.

A escola alemã deu espaço para a inglesa, com a Bodebrown Wee Heavy, cerveja curitibana de inspiração escocesa. “É muito maltada, quem faz o show são os maltes. A cor da cerveja é proveniente da tosta do cereal, de forma que fique mais caramelizado”, explicou.

Didático, o especialista explicou a importância dos lúpulos na definição de estilos. “Meus amigos dizem que os taninos são a alma do vinho, e eu digo que o lúpulo é a alma da cerveja.” Passou pela escola americana e explicou a “mistureba de estilos” e a revolução cervejeira que tem acontecido por lá, com ecos aqui no Brasil.

E propôs um brinde antes de terminar, com uma cerveja de estilo belga (escola, declaradamente, preferida pelo sommelier), a Einsenbahn Lust, cerveja doce, fermentada na garrafa com leveduras de champagne. “O belga trata a cerveja com a mesma devoção que os franceses tratam o vinho. A gente não precisa ter a frescura do belga, mas se tivermos 1% da devoção, beberemos melhor”.

Fonte: Sétimo Paladar – Estado de São Paulo